De cá para lá

De cá para lá.

De cá para lá, não é de modo nenhum o mesmo do que de lá para cá!!.

O embalar por vezes doce e melancólico salpicado de quando em vez por enormes turbilhões, não tem comparação com o tudo de cá para lá. O de lá para cá moldou-me a vida, sinto a falta do reboliço, do abalo constante das forças da gravidade, das forças que teimam e mexer com o atavio do meu ser.

É o depois que acentua a falta que me faz o durante, vai daí e dou por mim a pensar nos anos que já por mim passaram, pior é sentir o tratamento comum por você, VOÇÊ! Que raio? Será possível que tenham já passado tantos anos por mim?

Sinto falta do mar! Mas de lá para cá, porque de cá para lá é comum e apenas banal. Haaaá!! Mas de lá para cá, só poucos, só os que escolheram ser marinheiros.

As emoções ganham volume, talvez o sal do oceano as intensifique e lhes dê sabor especial e as fortaleça, mesmo que não as torne eternas mais que não seja as conserve durante longos tempos, mas é só talvez! Pois não estou certo que assim seja, aliás estou certo de pouco.

Nascer

Um dia, nem sei concretamente qual, mas sei que iniciou como qualquer outro!

Corria pachorrento desde cedo, seria este um como qualquer outro, apenas mais um, passaria em claro e seria riscado do calendário tal como qualquer um dos mais banais.

Mas esse dia brotou com vontade própria, fez questão de baixinho me sussurrar, eu sou o dia!

O dia em que tudo vai mudar.

Mudei-me a mim próprio, borrifei-me em almas penadas que se arrastavam no meu consciente há milhares de milhas mal navegadas.

A esperança ressuscitou, a alma aquietou e nada mais incomodou o meu dia, bastou apenas acreditar.

QUEM ÉS TÚ?

A Viagem

Mal pregou olho nem se sabe muito bem o porquê, sempre que cerrava os olhos vinham-lhe pensamentos á memória dos quais não solicitou a sua presença. Certo é que quando se ergueu sentiu alarvemente que estava mal dormido, foi diretamente para onde sentiu que tinha que ir, olhou o espelho e disse para si mesmo, ui meu amigo tens que fazer essa barba horrível. Lá pegou na sacana da Gillette e de pronto a encostou à velha e rugosa pele facial, mas só então reparou que nem espuma de barba tinha guarnecido tal superfície! Como assim ainda dormes?

Ao fundo chegavam aos seus pavilhões auriculares algumas demandas, demandas estas proferidas pela sua esposa. Após muito puxar pela memória, lá se foi lembrando que a sua cara-metade também fazia parte do pacote da viagem, e que pacote, pois vislumbrou rapidamente uma quantidade quase infinita de bagagem acumulada.

Passou pela face o belo do aftershave adquirido recentemente em local de que já nem se lembrava, passou-o primeiramente na sua predominante, a direita, ejaculou repetidamente o referido líquido em sua palma e levou-a rapidamente à face. De súbito gritou, gaitaaaaa, isto queima, mas gritou de tal modo estridente que a sua esposa veio à porta da casa de banho e verbalizou! Então já não queres ir? Então pah, não sejas parva, quando começares a fazer a barba falamos melhor.

Na altura já se encontrava perfeitamente desperto, e foi aí que tudo lhe bateu na massa cinzenta! Raios pois é vamos para Maputo, será que além de tudo, o Alzheimer também já tinha tomado conta dele. Olhou na descendente e tentou verificar se a braguilha estava realmente cerrada a sete chaves, e estava, deu um último vislumbre ao espelho e apreciou a sua face, rapidamente verificou que estava velho, sim velho, que não viessem com outros termos fofinhos, como foi possível a porra do tempo passar tão rápido, lembrou-se de relâmpago dos seus bons momentos na vida, e pensou para si mesmo, quando fores, vais de barriga cheia meu amigo. Depois de despertar para a realidade e da azafama que se adivinhava para o inicio da sua viagem, e mesmo assim com todas estas introspecções reparou que ainda se encontrava adiantado relativamente à cara-metade, ou como muito dos meus amigos apelidam, de a minha Maria, ou mesmo os mais brejeiros, a minha bicicleta, enfim, estou certo que o Cavaco Silva a apelidaria de, a minha esmerada esposa e progenitora dos meus filhos, e com aquele tom mumificado que só ele, e apenas ele consegue fazer.

O transporte aguardava-o à porta de casa, e depois de ter buzinado por mais que uma vez, instando-os a descer e após mais ou menos um certo tempo, desceram em direcção ao veículo, o tipo abriu o porta bagagens e ponto! Após mais ou menos um certo tempo chegaram ao aeroporto de Lisboa.

Foi aí que se lembrou da rábula do Sargento Tainha e do recruta Zero. Perguntou o Sargento ao recruta 34, escola, quanto tempo demora a arrefecer o cano de uma peça de artilharia de 100mm depois de fazer fogo? O 34 embaraçado disse, 10 minutos Sr. Sargento. O Sargento retorquiu você é um estúpido. Recruta 42, quanto tempo demora a arrefecer o cano de uma peça de artilharia de 100mm depois de fazer fogo? Sr. Sargento, pelo que li, são 5m. O Sargento retorquiu você é um estúpido, a pergunta foi-se repetindo, contudo ninguém deu a resposta certa ao Sr. Sargento, ao que ele, e após uns minutos de silencio em que mirou todo o pelotão de um modo absolutamente avassalador disse! Caros mancebos o cano de uma peça de artilharia de 100mm depois de fazer fogo, demora, mais ou menos um certo tempo a arrefecer.

Depois de sorrir para as câmaras do aeroporto e estar tudo certinho lá se dirigiram para o terminal 45, mesmo, mesmo aquele que ficava pouco mais ou menos antes do último. Não foi da Força Aérea mas sempre mirou as aeronaves com uma profunda admiração, o sentimento era de tal monta que ainda pensou em tirar a sua Canon da mala, e fotografar a aeronave que se encontrava na manga, a mesma que o iria transportar até Maputo, contudo após repara que os vidros estavam imundos decidiu não o fazer.

Após embarcar e ter-se repimpado no seu exíguo lugar tentou encafuar a sua bagagem de mão no local por cima de si, após terminar tal tarefa tentou ajeitar-se do melhor modo possível, limpou o suor das frontes após tamanha azafama, e estava finalmente a caminho do seu destino fosse ele o que fosse, tentou cerrar os olhos pois sabia que a viagem era longa, cerca de 11h, pediu à hospedeira um Johnnie Walker, a Sra. mirou-o de um modo austero e retorquiu, eu sou Assistente de Bordo e não Hospedeira. Desculpe, disse ele e ela desapareceu no fundo do corredor, certo é que pouco depois uma Sra. Assistente de Bordo se aproximou dele e delicadamente tocou-lhe no ombro, com um daqueles toques que poderia muito bem ser um convite de casamento, pelo menos foi isso que ele sentiu, a situação era de tal modo que nem parecia funcionária da companhia de bandeira TAPA, mas enfim deixemo-nos de romances de cordel, o que era importante, isso sim, a é que a dita Sra. Lhe colocou nas mãos 3 mini garrafinhas de Johnnie Walker, ele sorriu para si mesmo, e talvez para a Sra. Também, pois nunca foi de grandes antipatias, mas tudo melhorou quando a Sra. lhe deu também um copo bem guarnecido de gelo! Meu Deus, estou a caminho do céu? Que fiz eu para merecer tal tratamento? Tomou tal como lhe tinha aconselhado um Valdispert e emborcou de um modo sôfrego duas das referidas garrafitas. Foi remédio santo, adormeceu como um bebé, segundo consta até se babou abundantemente.

Durante tais momentos sonhou com a sua esposa e com toda epopeia da ida de casa até ao aeroporto, sentia que tinha sido demasiado ríspido com a sua cara-metade, sentia que quando despertasse tinha obrigatoriamente que a olhar seriamente com um ar apaixonado e sem reservas dizer-lhe de um modo direto, que a amava. Era isso mesmo que iria fazer, sem qualquer tipo de dúvida, tinha que se redimir e mostrar todo o seu carinho.  Sim era isso, pensou em mil e uma maneiras de se redimir, flagelou-se constantemente durante o tempo em que cerrou os olhos, era fundamental.

Despertou de um modo abrupto com o som do apertar dos cintos de segurança, tentou ajustar e fixar o olhar e assim que o fez virou a face para a sua vigia no lado esquerdo e vislumbrou um nascer do Sol soberbo, tentou ajustar o olhar para tal espectáculo único e impar, sentiu o trem de aterragem a ser operacionalizado e pouco depois as rodas tocavam a pista de Mavalane, absorveu tudo com a maior das calmas, e após tal retomou o seu sonho, preparou um daqueles sorrisos softs, mas carinhosos que todas as mulheres gostam conjugando tudo com um olhar único, e sabia que iria resultar.

O choque foi total, a seu lado estava uma tipa com um ar carrancudo e muito mal encarada. Mas que era feito da sua querida esposa, teria saído para ir ao WC? Mas que raio e onde está ela? Olhou em seu redor, fez uma profunda introspecção e concluiu que tudo tinha sido um sonho feliz, não o casamento, mas sim os traços precisos do corpo de sua cara-metade.

Abriu a sua mochila pequena onde estava guardada toda a sua documentação e após abrir o segundo fecho da mochila algo lhe bateu nos pés e sentiu-os completamente encharcados. Mas que raio!

 

A Ponta do Ouro

Adorava acordar assim com o mar a seus pés, era sem duvida algo que o estimulava e mantinha vivo em todos os aspectos da sua vida pessoal e profissional, afinal era para tal que se tinha proposto a imensos sacrifícios pessoais e familiares para ser biólogo marinho.

Estava numa missão única de monitorização e acompanhamento dos tubarões baleia que frequentavam a costa de Moçambique, e depois da foz do rio Maputo, nomeadamente da Ponta do Ouro não havia lugar melhor no mundo para observar tais magnificas criaturas. Tão belas criaturas estavam também fora de água, observava-as com regularidade, respeito e admiração. As mulheres negras são por norma muito bonitas, simpáticas e afáveis, admiro-as verdadeiramente.

Escreveu um dia o maior de todos os que escrevem em Lusitano, após uma enorme paixão por Bárbara, a bela negra.

“Aquela cativa

Que me tem cativo,

Porque nela vivo

Já não quer que viva,

Eu nunca virosa

Em suaves mochos,

Que para meus olhos fosse mais fermosa.

Nem no campo flores,

Nem no céu estrelas

Me parecem belas

Como meus amores,

Rosto singular,

Olhos sossegados,

Pretos e cansados,

Mas não de matar.

Uma graça viva,

Que neles mora,

Pera ser Senhora

De quem é cativa,

Pretos os cabelos

Onde o povo vão

Que os louros são belos.

Pretidão de amor,

Tão doce figura,

Que a neve lhe jura

Que trocara a cor.

Leda mansidão,

Que o siso acompanha;

Bem parece estranha,

Mas Bárbara não.

 

De algo estava perfeitamente e concretamente mentalizado, não mais pararia de sonhar, pois o sonho comanda a vida, dá-lhe mais cor.

Atitude

Sinto falta das histórias dos grandes feitos, protagonizados por grandes líderes, dos Henriques, dos Gamas, dos Cabrais, dos Melos, mas não o das vacinas, dos Salazares, daqueles que protagonizaram grandes mudanças e nos fizeram avançar.

Dos que inovaram, e se aventuraram na demanda de um futuro melhor. Estes sim! Mas já não há gente assim,

Agora todos olham para o seu umbigo, mas tanto olham, que nada vislumbram.

Agora está tudo pré feito, mas feito à maneira, de quem o faz.

Perfeito, para quem nada faz.

Sim sou saudosista, sinto saudades do Casablanca, da Ingrid Bergman e do Humphrey Bogard, do Vasco Santana, do Raul Solnado, e tantos outros.

Talvez esteja fora de tempo tempo, talvez!

Mas se estou, ao contrário do que muitos pensam, não me sinto deslocado.